Regulação cripto do BC: o que a PME faz com o caixa
Terminou na sexta-feira, 30 de outubro de 2026, o prazo para as empresas de criptoativos pedirem autorização ao Banco Central e continuarem atuando no Brasil. Para a maioria das PMEs, isso parece assunto de investidor. Mas, se o seu negócio guarda saldo em uma corretora cripto, recebe pagamentos em moeda digital ou usa stablecoins para pagar fornecedor no exterior, a mudança chega ao seu caixa.
O que aconteceu
Segundo o Estadão Conteúdo, publicado pelo Money Times e pelo InfoMoney, as chamadas prestadoras de serviços de ativos virtuais (compra, venda, troca, custódia ou intermediação de criptoativos) precisavam pedir licença ao BC até 30 de outubro. Sem a chancela, não podem seguir operando no país. Quem protocolou o pedido continua funcionando até a resposta do regulador, que pode aprovar ou negar.
De acordo com a apuração da Broadcast, já protocolaram ou confirmaram o pedido nomes como Binance, Coinbase, OKX, Mercado Bitcoin, Foxbit, Nubank, Itaú, Bradesco e B3. A lista completa inclui dezenas de empresas menores.
A base legal vem da Lei nº 14.478, de dezembro de 2022. Em novembro de 2025, o BC publicou três resoluções sobre autorização e funcionamento dessas empresas. Segundo a Capital Aberto, as regras valem desde 2 de fevereiro de 2026 e o pedido de 30 de outubro é só a primeira fase: exigências prudenciais adicionais entram em vigor a partir de 2027.
Há ainda uma data logo à frente. Pela Resolução BCB 589, citada pela Capital Aberto, a partir de 6 de novembro as instituições autorizadas pelo BC ficam proibidas de fazer ou viabilizar operações com contrapartes de ativos virtuais que não estejam autorizadas a funcionar no país, salvo exceções previstas.
Linha do tempo com as datas do marco regulatório de criptoativos no Brasil, de 2022 a novembro de 2026.
Por que isso importa para a sua empresa
O mercado vai encolher. Segundo a ABcripto, havia cerca de 200 empresas antes da regulação. Estimativas de quem acompanha o setor falam em cerca de 50 pedidos de autorização, o que significaria uma redução de 75% (150 empresas a menos em 200). Parte dos pedidos pode ser negada, e a Capital Aberto avisa que a primeira visão confiável do tamanho dessa saída deve surgir só no fim de novembro ou início de dezembro.
O custo explica a peneira. Fontes ouvidas pela Broadcast afirmam que manter uma empresa dentro das exigências do BC custa em média cerca de R$ 2 milhões por mês, o que dá R$ 24 milhões por ano apenas para a manutenção. Segundo a Capital Aberto, o capital mínimo exigido varia de R$ 10,8 milhões a R$ 37,2 milhões, conforme as atividades.
Para o dono de PME, o risco prático é de operação e liquidez, não de lucro. Veja um exemplo hipotético:
| Cenário (ilustrativo) | Valor |
| Saldo da empresa em stablecoins, numa plataforma pequena | R$ 80.000 |
| Despesa mensal fixa da empresa (folha, aluguel, impostos) | R$ 60.000 |
| Meses de despesa presos se a plataforma travar saques | 80.000 ÷ 60.000 = 1,33 mês |
Nesse exemplo inventado, travar o saque custaria mais de um mês de operação. É a mesma lição do fluxo de caixa projetado: dinheiro que você não consegue sacar em poucos dias não conta como caixa.
O caso da NovaDAX mostra como o processo pode ser abrupto. Segundo a reportagem, a plataforma avisou que o saldo não resgatado até 30 de outubro seria convertido compulsoriamente. A Bitso, por sua vez, transferiu a base de clientes ao Mercado Bitcoin e deixou de atuar no Brasil.
O que fazer agora
- Liste onde há saldo cripto da empresa: corretoras, carteiras, adquirentes de pagamento em moeda digital. Anote o valor e o nome jurídico de cada plataforma.
- Confirme se a plataforma pediu licença ao BC e peça isso por escrito ao suporte. Se ela não pediu, pergunte qual parceiro licenciado assumirá o atendimento.
- Teste a saída antes de precisar: faça um saque pequeno para a conta bancária da empresa e anote prazo e tarifas.
- Retire o excedente de plataformas sem resposta clara. Saque primeiro o que a empresa precisa para os próximos 60 dias de despesas, e só depois pense em manter o restante.
- Guarde os comprovantes de compra, venda e transferência, porque seu contador precisará deles. Veja também o cálculo de margem para checar se vender em cripto compensa o risco.
- Não use cripto como reserva de emergência: o preço oscila, como mostrou o bitcoin entre US$ 67 mil e US$ 80 mil nos últimos dias, segundo o Money Times.
Faça isso antes de decidir sobre qualquer investimento, porque primeiro se protege o caixa operacional e depois se discute risco. Este conteúdo é informativo e não substitui orientação de contador ou advogado.
O que ainda não sabemos
- Quantas empresas terão o pedido aprovado e quanto tempo o BC levará para responder.
- Quantas plataformas encerrarão as atividades. A Binance afirma que ao menos 11 anunciaram saída ou redução até setembro, mas o BC não confirmou esse número, segundo a Capital Aberto.
- Como ficarão temas ainda em aberto, como carteiras autocustodiadas, transferências internacionais e contas de margem.
- Se haverá concentração da custódia em poucos prestadores, hipótese levantada pela Capital Aberto.
Outro ponto de atenção: desde 1º de outubro, segundo a Capital Aberto, transferências de ativos virtuais de ou para carteiras autocustodiadas de US$ 10 mil ou mais devem ser comunicadas ao Coaf. Se a sua empresa movimenta valores desse porte, converse com o contador sobre a documentação.
Fontes consultadas
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