Raízen e recuperação extrajudicial: o que o fornecedor faz
Na sexta-feira (30/10), duas grandes empresas brasileiras deram passos decisivos para renegociar dívidas bilionárias: a Raízen aprovou seu plano de recuperação extrajudicial e a Oncoclínicas informou ter alcançado o quórum mínimo para levar o seu à homologação. Para a pequena empresa que vende, presta serviço ou entrega insumos a clientes grandes, o assunto não é distante: é uma lição direta sobre risco de crédito e prazo de recebimento.
O que aconteceu
Segundo a Exame, a Raízen, controlada por Cosan e Shell, obteve a aprovação do plano que reestrutura R$ 61,4 bilhões em dívidas. O NeoFeed fala em passivo de cerca de R$ 65 bilhões; a diferença entre os veículos provavelmente decorre do critério de contagem, e o texto do plano é a referência final.
De acordo com a Exame, o plano teve apoio de 81,6% dos credores e foi homologado em 30 de julho. Pelos termos, 45% dos créditos serão convertidos em ações, ao preço de R$ 0,25 por ação, e os 55% restantes viram novos títulos de dívida, por substituição, refinanciamento ou aditamento. Há ainda um aumento de capital que pode ir de R$ 3,5 bilhões a R$ 39,8 bilhões, segundo a Reuters citada pela Exame, e a separação da empresa em duas companhias listadas: uma de açúcar, etanol e bioenergia, outra de distribuição de combustíveis. O conselho se reúne em 6 de novembro para deliberar sobre o aumento.
Já a Oncoclínicas, conforme o Seu Dinheiro, teve adesão de credores com mais de R$ 3,5 bilhões em créditos, o equivalente a 61,6% da base de cerca de R$ 5,7 bilhões. O plano prevê conversão de parte das dívidas em novos instrumentos, alongamento de prazos, emissão de debêntures conversíveis e descontos em algumas modalidades, além de condições específicas para fornecedores. O próximo passo é a Justiça publicar o edital previsto no art. 164 da Lei 11.101/2005.
Como funciona a recuperação extrajudicial
Pela Lei 11.101/2005, a empresa negocia o plano com os credores e pede à Justiça a homologação. Alguns pontos do texto legal valem atenção:
- O plano precisa ser assinado por credores que representem mais da metade dos créditos de cada espécie abrangida (art. 163).
- Depois de homologado, ele obriga todos os credores das espécies abrangidas, inclusive quem não aderiu (art. 163, §1º).
- Créditos de natureza tributária ficam de fora (art. 161, §1º), e créditos trabalhistas só entram por negociação coletiva com o sindicato.
- Depois da publicação do edital, os credores têm 30 dias para apresentar objeções, que se limitam a hipóteses como falta do quórum mínimo (art. 164).
Por que isso importa para a sua empresa
Quem vende a prazo é, na prática, um credor. Se o cliente entra em reestruturação, o valor a receber pode ser alongado, convertido ou ter desconto, dependendo de como o plano trata a sua espécie de crédito. E o dano real costuma vir antes: o cliente atrasa, você segue entregando e o buraco cresce.
Veja uma conta ilustrativa (cenário hipotético, não é um caso real). Uma distribuidora fatura R$ 500 mil por mês e um único cliente grande representa 30% disso, ou R$ 150 mil mensais. Com prazo de 45 dias, ela mantém cerca de R$ 225 mil a receber desse cliente (150 mil × 1,5). Se um plano hipotético impusesse desconto de 50% sobre esse saldo, a perda seria de R$ 112,5 mil, o equivalente a 22,5% do faturamento de um mês.
| Item | Valor (hipotético) |
| Faturamento mensal | R$ 500.000 |
| Venda mensal ao cliente em crise (30%) | R$ 150.000 |
| Saldo a receber com prazo de 45 dias | R$ 225.000 |
| Perda com desconto de 50% | R$ 112.500 |
O número assusta, e é essa a função dele: mostrar que concentração em um cliente é o fator que transforma uma notícia de bolsa em problema de caixa. Use a calculadora de porcentagem para medir a sua própria concentração.
Comparação entre os planos de recuperação extrajudicial da Raízen e da Oncoclínicas, com percentual de adesão dos credores.
O que fazer agora
- Liste os clientes que representam mais de 10% do faturamento e verifique se algum divulgou fato relevante, atraso ou pedido de recuperação.
- Reduza o prazo e o limite de novas vendas para clientes em reestruturação antes de renegociar o saldo antigo: assim o risco para de crescer enquanto você negocia.
- Exija entrada, pagamento antecipado ou garantia em novos pedidos quando o risco for relevante.
- Leia o plano ou o fato relevante e procure as condições para fornecedores, como as citadas no caso da Oncoclínicas.
- Projete o caixa com o recebimento atrasado: o fluxo de caixa projetado mostra em que semana o dinheiro falta.
- Consulte um advogado antes de assinar adesão ou apresentar objeção, pois o prazo é curto. Este texto é informativo.
Ao revisar preços de novos contratos de risco, embuta o custo financeiro do prazo na margem de lucro, para que a venda a prazo não vire prejuízo.
O que ainda não sabemos
- Como o plano da Raízen trata, na prática, fornecedores de menor porte: as fontes consultadas falam de credores financeiros e não detalham esse grupo.
- Se o aumento de capital da Raízen ficará perto de R$ 3,5 bilhões ou de R$ 39,8 bilhões, decisão prevista para o conselho de 6 de novembro.
- Se haverá objeções ao plano da Oncoclínicas após a publicação do edital e quanto tempo levará a homologação.
- Qual é o valor correto do passivo da Raízen, já que as fontes divergem (R$ 61,4 bilhões e R$ 65 bilhões).
Fontes consultadas
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